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domingo, 15 de novembro de 2009

Teatro para quem gosta de Música






TEATRO//MUSICAL


Musical “Meu caro amigo”, exibido no Teatro Apolo, faz um ode à Chico Buarque

Iohana Ruiz

A época da Ditadura Militar no Brasil, entre os anos 60 e 80 ,como se sabe, foi um período de repressão no mais alto nível. Era censura na imprensa, censura nas expressões do corpo e da alma, censura aqui, censura aculá. O governo ditatorial eliminava todas as manifestações consideradas “esquerdistas”. Foi com esse marco histórico em mente que o público recifense preencheu todas as cadeiras do Teatro Apolo neste último final de semana. O musical “Meu caro amigo” conta a trajetória de vida da professora de História do Brasil, a cinquentona Norma, uma carioca e apaixonada declarada do cantor Chico Buarque que resolve expor, a todo momento, e em púbico, seu amor ao artista.

O espetáculo arrancou intensas risadas da plateia. Com muito humor, leveza, naturalidade e entrega ao trabalho, a atriz Kelzy Ecard agradou todos os presentes que esvaziaram, ao final da peça, os assentos e rumaram para seus respectivos destinos, satisfeitos e cheios de esperança na alma. Isso porque durante 80 min, o público pôde escutar as principais canções de Francisco Buarque de Holanda, o famoso Chico. A cada melodia, a atriz dava um “pocket-show” à parte e sensibilizava os quatro cantos do teatro. Depois de “dar uma palhinha”, com voz entonada aguda e delicada, a atriz se voltava e trocava idéias com as pessoas no teatro. Falou sobre o amor, dividiu as dores de relacionamentos, analisou a questão família, adolescência, infância, infantilidades, descobertas, dentre tantos outros aspectos da roda da vida.

A narração solo da personagem se divide entre memória nacional e individual. Isso porque a protagonista se utiliza do amor e fanatismo ao cantor como forma de inspiração para situar os fatos durante a Ditadura. “Rio de Janeiro, 1966, eu tinha 10 anos. Começo, a partir daí, a contar a minha história através de Chico.” “Qualquer idéia contrária ao regime militar era exílio e repressão na certa. E assim aconteceu com os olhos azuis mais lindos que já vi. Durante esses anos, ele não fez nenhum show, nada, para a minha imensa tristeza”, dizia Norma.
A interação plateia-ator acontece de forma irreverente. A amizade entre os dois acaba surgindo de forma espontânea e vai crescendo ao longo dos minutos.

Aqueles que pagaram um preço ínfimo de R$10 e R$5 (meia) puderam conferir uma espécie de monólogo e narração psicológica que se juntavam à necessidade quase que incessante de um “feedback” do outro lado do tablado. Isso pode ser facilmente explicado pelo talento sem fim da atriz Kelzy Acard que contou com a ajuda essencial do pianista João Bittencourt. Houve quem saísse do espetáculo e se indagasse: “Mas essa é a história da própria Kelzy ou da Norma¿ Eu não sei até onde termina a ficção e começa a realidade da própria atriz.”

O cenário, composto por dois cômodos (quarto e sala), situam a platéia no espaço e no tempo. No quarto que Norma ocupou durante toda a infância até o dia que saiu de casa, mais ou menos aos 30 anos de idade, todos os vinis de Chico ganham destaque. Uma vitrola para ouvir o cantor, cadeira, mesa e uma televisão – que nunca funcionava ao que a personagem recordava quando ia falando das várias fases da vida, colocando a figura do pai e da mãe como fundamentais no processo de autoconhecimento, constroem a ambientação das cenas.
A peça conta com pouca iluminação a fim de criar um ambiente intimista de introspecção da personagem e sua relação com o mundo externo.

Norma é criança, adolescente, é o pai, a mãe, o tio, a tia, as amigas, todas em uma só. Uma esquizofrenia de interpretações, todas regadas pelas expressões de fala e olhares esbugalhados e marcantes de Kelzy Ecard. Com um vestido preto e um salto alto, aparentando um visual próprio de professora, que tem o dom de passar o conhecimento, Norma transmite a imagem de uma mulher adulta, que já experimentou a obediência, a responsabilidade, a rebeldia e o orgulho – este último que a fez deixar de falar com o pai por cerca de 20 anos.

A cada fala, a personagem mostra o quão é brasileira, portanto, lutadora dos ideais de liberdade. Esteve presente no comício pelas “Diretas já”, participou de movimentos estudantis e acompanhou, passo a passo, a luta do nosso país pela Democracia. Suas impressões e sentimentos eram colocados também aos alunos de uma escola estadual onde ministrava aulas. A vencedora do prêmio APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro), Kelzy Ecard, esbanja segurança e verdade na atuação. Interage com o público, enquanto canta e vive as canções de Chico. Assim, “Meu caro amigo” não deixou nenhuma dúvida de que memória e música são uma combinação perfeita , ainda mais com Chico Buarque sendo o grande homenageado da noite.